Sociedade Brasileira de Eubiose
A esperaça da colheita reside na semente
A universalização do saber
Existe um problema crucial na produção do saber, que é a dificuldade em universalizar uma experiência subjetiva, bem singular, como a que ocorre nos dispositivos analíticos. A questão da universalização do saber já é bem antiga na história da civilização. Platão, no Livro VII da República, mostra a hoje clássica situação dialética daquele que conhece face aos demais que não possuem o conhecimento, bem detalhada na Alegoria da Caverna.
Num outro extremo, Wittgenstein radicaliza a questão do saber obtido a partir da experiência, afirmando que os limites de sua linguagem são os limites do seu mundo. Esta radicalidade alicerçada num solipsismo, nega a visão platônica.
Acreditamos que no cerne desta dificuldade de transmissão de um saber gerado no dispositivo analítico está o próprio horror de saber, que como acentua Bernardino Horne, é um obstáculo da análise no caminho para seu final.
A Alegoria da Caverna
Na Alegoria da Caverna, Platão descreve homens acorrentados que não percebem a luz, mas sim sombras projetadas no fundo da caverna, que a tomam como a única e verdadeira realidade. Um deles rompe com as correntes, sai da caverna e conhece a luz, as verdadeiras formas.
Em seguida, este homem que conheceu a realidade volta à caverna, e tem diante de si o problema de comunicar o novo conhecimento, que é para Platão um ato de visão, de contemplação, que em grego é teorein, de onde vem teoria. Ao voltar à caverna, este homem, por ter o conhecimento, ficou cego para a situação anterior, de sombras. Ao tentar convencer os demais, é ridicularizado, com o argumento de quem não vê (as sombras), não pode falar ou dizer o que fazer (da verdadeira realidade).
Para o impasse, Platão propõe a saída do mito, da alegoria, em que o conhecimento da realidade seja apresentado numa forma alegórica, ou seja, numa linguagem possível de entendimento num código já conhecido.
Conhecer é representar
Indo em outra direção, Wittgenstein radicaliza a questão do conhecimento obtido a partir da experiência ou da objetividade. Para ele, conhecer é representar, e a representatividade está na linguagem. Assim, o eu, como entendido filosoficamente, fica excluído, não é uma coisa pensante, mas um ponto a partir do qual se efetua a projeção da realidade na linguagem, da mesma forma que o olho não está no campo visual. Este eu, este “sujeito”, diz ele, garante que os limites da linguagem significam os limites do mundo, “do meu mundo”.
Esta radicalidade alicerçada num solipsismo, nega o realismo e, consequentemente, a visão platônica. Não existe o problema da comunicação (como entende Platão) para Wittgenstein, porque, para este, o seu mundo é o primeiro e único mundo, e a história não o importa.
Tanto Platão quanto Wittgenstein partem do pressuposto da existência do sujeito (filosófico) e de um objeto (dado concreto para entender a realidade). Platão, cujo discurso filosófico se estrutura a partir de uma ética, começa das relações entre o sujeito (o homem que saiu da caverna) com o objeto (os outros homens que continuaram lá prisioneiros), para refletir sobre a linguagem e as dificuldades de transmissão do conhecimento. Wittgenstein, ao contrário, estrutura seu discurso no sujeito, e nega toda a possibilidade de haver conhecimento no objeto.
Caríbdis e Cila
As dificuldades para transmissão de um saber oriundo de uma reflexão bem pessoal, a partir de theorein (verbo grego que se origina do substantivo theoi — Deus) remontam às primeiras tentativas de organização do conhecimento, na jovem Grécia dos primeiros pensadores, dos primeiros filósofos. Theorein, com a evolução do pensamento grego, tornou-se théoria, conhecimento especulativo, desvinculado da práxis.
No campo da filosofia ainda está em aberto esta questão — como organizar e melhor transmitir uma teoria formada por novos paradigmas?
Que dizer do saber profundamente subjetivo gerado num dispositivo analítico?
Jacques-Alain Miller, em comentários sobre o capítulo “Essa sombra espessa”, do livro de Bernardino Horne, Fragmentos de uma vida psicanalítica, e, nele inseridos, nos diz do trabalho do autor em falar de sua experiência pessoal (do passe) que consegue se universalizar. “A passagem do singular da experiência para o universal é muito difícil. Ou fica marcada pelo singular da experiência do sujeito ou é demasiado universal e se transforma em norma. Logo, caminha-se entre o Caríbdis da experiência subjetiva e o Cila da universalização. Neste texto, porém, tal dificuldade é negociada de modo matizado” [HORNE, 1999:47].
Caríbdis e Cila são dois monstros femininos que viviam perto de Messina, no estreito que separa a Itália da Sicília, aterrorizando os viajantes, dentre eles Ulisses. Caríbdis absorvia uma grande quantidade de água do mar, arrastando para sua boca tudo que flutuava. Após engolir os navios, expelia a água. Ulisses escapa agarrando-se a um arbusto na entrada da caverna onde vivia o monstro.
Cila tinha um corpo de mulher mas, na parte inferior, em torno do púbis, havia seis cães ferozes que devoravam tudo que passava ao seu alcance. Quando Ulisses passou próximo à gruta onde Cila encontrava-se emboscada, os cães saltaram e devoraram seis companheiros do herói.
Sem serem Ulisses, entre Caríbdis e Cila se arriscam os psicanalistas de orientação lacaniana, que não dispõem da ilusão de um standard durante suas jornadas. Pelo contrário, a única certeza que se tem é a da não garantia, o de autorizar-se por si próprio.
Bernardino Horne nos aponta que “a idéia de universalização é complexa. Minha intenção não era universalizar, mas, ao mesmo tempo, essa dimensão era necessária à minha perspectiva. Eu o fiz a partir da minha experiência e tenho estado um pouco sozinho na América Latina para trabalhar estas questões” [HORNE, 1999:52].
“O passe de Freud”
Mas se as dificuldades de transmissão de uma experiência subjetiva são imensas, o próprio nascimento da psicanálise como um saber nos aponta algumas saídas. Bernardino Horne afirma que o sonho da injeção de Irma inaugura uma nova dimensão do sujeito, a do verdadeiro saber. “Seria bastante pertinente denominá-lo ‘o passe de Freud’. E a leitura feita por Lacan no Seminário 2, é surpreendente. Sustenta que Freud toca o real verdadeiro, o objeto essencial, alguma coisa diante da qual as palavras param e todas as categorias fracassam” [HORNE, 1999:43].
O sonho de Irma, principalmente pelo seu caráter de poiésis — fundação de um novo saber —, pode se considerado como marco. A sua transmissão traz em si não apenas esta dimensão poiética, mas uma radicalidade essencial, na medida em que Freud em nome de um novo saber — a psicanálise—, expõe uma profunda experiência subjetiva, um sonho que inclusive põe em questão, através da interpretação feita por ele próprio, sua condição de médico psicanalista.
E encerramos com Lacan no Seminário 2: “Mas ele não está sozinho, não. Freud quando nos comunica o segredo deste mistério luciferiano, não está sozinho confrontado com este sonho [o sonho de Irma]. Assim como numa análise o sonho se endereça ao analista, Freud neste sonho está endereçando-se a nós. [...] E é por isto que ver a palavra, na derradeira palavra absurda do sonho não é reduzi-lo a um delírio, já que Freud, por intermédio deste sonho, faz com que nós o ouçamos, e nos põe efetivamente no caminho de seu objeto que é a compreensão do sonho” [LACAN,1985:216].
Bibliografia
ALTHUSSER, Louis. Freud e Lacan, Marx e Freud. Rio de Janeiro, Graal, 1985.
CHAUVIRE, Christiane. Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.
GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Bertrand, 1992.
HORNE, Bernardino. Fragmentos de uma vida psicanalítica: da Ipa a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
LACAN, Jacques. O seminário, Livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
NETO, Laudelino Santos. Linguagem e conhecimento na instância do outro. Episteme, Tubarão, v. 2, n. 5/6, p. 81-88, mar/out. 1995.
* Laudelino Santos Neto. (Texto inédito.)